A unidade da Pizzaria Dom Bosco, na 414 Sul, se transformou, por alguns momentos, em uma sala de aula do Núcleo de Empreendedorismo Juvenil (NEJ) no dia 18 de setembro. Organizada pelo Sebrae no Distrito Federal, a visita reuniu estudantes que participam das atividades da iniciativa nas escolas técnicas Leste Sérgio Damasceno, no Paranoá, e de Santa Maria, com o objetivo de apresentar aos jovens uma trajetória empresarial marcada pela preservação da identidade do negócio e pela adaptação às mudanças do mercado.
Fundada em 1960, mesmo ano da inauguração de Brasília, a pizzaria foi um dos primeiros estabelecimentos comerciais a funcionar na cidade. O negócio começou com uma loja na 107 Sul e, ao longo dos anos, consolidou-se como parte da memória afetiva dos brasilienses.
Toda a trajetória de 65 anos da marca foi revisitada por Enildo Veríssimo Gomes, fundador da pizzaria, que detalhou aos jovens os pilares que sustentam a longevidade da Dom Bosco desde a década de 1960. Ele contou que chegou a Brasília sem dinheiro, numa época em que a cidade ainda não tinha quase nada e poucos acreditavam que ela iria adiante. Nesse momento, o empresário sustentou que o início foi alicerçado na coragem, somada à disposição de trabalhar.

Enildo também revelou que, mesmo aos 81 anos, busca estar sempre envolvido na operação da pizzaria, movido pela satisfação pessoal em exercer o ofício e pelo prazer em atender o público. O proprietário afirmou que a qualidade do produto e a autenticidade são fundamentais. Pontuou que um bom empreendedor precisa manter sua identidade e dominar tecnicamente todos os processos da empresa, a ponto de o próprio dono ser capaz de assumir a produção caso algum funcionário falte. Além disso, ele destacou a importância da valorização da equipe, com bônus para colaboradores assíduos e comprometidos.
Apesar de manter a tradição em sua receita de pizza, o empresário explicou aos estudantes que um negócio também precisa se modernizar. No caso da Pizzaria Dom Bosco, ele apontou como indicadores desse processo a implementação do sistema de delivery durante a pandemia e as particularidades da unidade da 414 Sul, a única a oferecer mesas, cadeiras e Wi-Fi para a clientela.

Enildo ainda falou aos estudantes sobre os obstáculos que surgiram ao longo dos 65 anos de história da Dom Bosco, como as fases de dívidas, crises e mão de obra escassa. Ele também alertou para o perigo de quem pensa em abrir uma empresa apenas por ver o movimento em outros estabelecimentos e lembrou que já recebeu muitos empresários em suas unidades que o procuraram com a intenção de abrir uma pizzaria similar à Dom Bosco, mas, quando abriram as portas, não obtiveram o sucesso esperado.
Para o fundador, quem não domina o ofício acaba refém da equipe e sem saber o que fazer quando alguém falta. “Como é que vai montar uma coisa? Vai depender dos outros, ficar na mão do empregado”, argumentou.
A partir desse contexto, Enildo deixou um conselho direto aos estudantes e a quem pensa em empreender e comentou sobre o importante papel de instituições de formação na vida de quem empreende. “Aconselho todo mundo, Sebrae, Senac, onde tiver curso, vá escutar e aprender com quem entende desse caminho, que é o Sebrae, o Senac, o Senai e outras instituições. Se você não tiver uma orientação, não adianta”, concluiu.
O analista da Assessoria de Políticas Públicas e Ecossistema de Negócios e gestor da Educação Empreendedora no Sebrae no DF, Fernando Leite, acompanhou a atividade e afirmou que levar os estudantes para ouvir o fundador de um empreendimento histórico no Distrito Federal é uma forma de humanizar o aprendizado e mostrar que a teoria das salas de aula ganha vida na persistência do dia a dia. Segundo ele, o contato direto com trajetórias reais é fundamental para formar empreendedores conscientes e resilientes.

“Ver de perto um negócio que nasceu com a capital e se mantém relevante por mais de seis décadas é uma das aulas que esses estudantes poderiam ter. O Enildo personifica o que ensinamos. O sucesso não vem apenas de uma boa ideia, mas do domínio técnico, da valorização das pessoas e da capacidade de se adaptar sem perder a essência”, avaliou Fernando.
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