Estudantes da rede pública do Distrito Federal, especialmente da região de Taguatinga, reuniram-se na última quinta-feira, 11 de setembro, para a etapa regional do 14º Circuito de Ciências das Escolas Públicas do DF. Promovida pela Secretaria de Estado de Educação do DF (SEEDF), a iniciativa conta, pelo terceiro ano consecutivo, com o apoio do Sebrae no DF, que colabora na mobilização da comunidade escolar e no fomento à produção e divulgação de projetos científicos, tecnológicos, empreendedores e culturais.
O evento ocorreu em uma estrutura montada no estacionamento da Escola Técnica de Brasília, a ETB, e reuniu centenas de estudantes que nos últimos meses se debruçaram para dar andamento a 52 projetos de 25 escolas diferentes
A edição deste ano do Circuito de Ciências busca incentivar a pesquisa, a criatividade e o protagonismo estudantil, além de promover um debate essencial sobre a preservação dos recursos hídricos. Para isso, os estudantes da rede pública do DF foram desafiados a desenvolver projetos alinhados ao tema “Água para quê?”, que está em sintonia com a 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). A SNCT, cujo tema é “Planeta Água: Cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território”, é o principal evento de divulgação científica do Brasil. Organizada há 21 anos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o evento abrange atividades em todas as regiões do país.
À frente da Coordenação Regional de Ensino de Taguatinga, Daniela Souza, destacou o envolvimento das unidades escolares na realização do circuito deste ano. Segundo ela, houve um envolvimento mássico de todas as 67 escolas da região, ajudando a expandir o conhecimento sobre a importância da água – não apenas em relação à saúde, mas também ao meio ambiente e à economia de recursos. “Este evento é uma culminância. É um momento fundamental para valorizar o trabalho que os estudantes iniciaram nas salas de aula na escola e, ao mesmo tempo, colocar também para a comunidade, no geral, o que acontece dentro das nossas escolas”, afirmou.
Daniela comentou ainda sobre o papel do Sebrae no DF e não poupou elogios, descrevendo a instituição como muito mais que um parceiro. “O Sebrae é um parceirão da educação do DF. Eles atuam nos orientando. É como se fosse o nosso braço direito, o nosso braço esquerdo. Essa parceria estratégica tem sido fundamental para impulsionar a educação científica e empreendedora na rede pública de Taguatinga, capacitando educadores e inspirando milhares de estudantes.”, pontuou.
O apoio da instituição foi além das salas de aula. A instituição promoveu atividades interativas para a etapa regional de Taguatinga, incluindo oficinas utilizando canetas 3D e jogos educativos.
Preservação dos recursos hídricos
Um dos projetos expostos na etapa regional do Circuito de Ciências, estudantes do Centro de Ensino Médio Escola Industrial de Taguatinga (CEMEIT) trouxeram à tona uma discussão acerca do uso da água no processo de resfriamento de data centers. A iniciativa lança luz sobre um paradoxo da era digital, onde o avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) e a iminente chegada do mundo quântico elevam não apenas o consumo de energia, mas também a demanda por água para manter a infraestrutura tecnológica resfriada.
Esther Costa, estudante do 3º ano, disse ter ficado espantada ao saber, em sala de aula, que o uso de IA consome muita água e que o assunto é pouco divulgado, não sendo visto como um problema. “Foi algo que realmente chocou muita gente em nossa sala. Nem imaginávamos que a Inteligência Artificial usava água. E ficamos preocupados. Se o consumo atual persistir, pode gerar algum problema muito grande, futuramente”, observou ela.
Vitor Gabriel Magalhães, estudante do 3º ano e integrante da equipe, ficou igualmente surpreso com as descobertas e resolveu aprofundar seus estudos sobre o funcionamento dos data centers. Ele e os colegas perceberam que, por serem ambientes fechados, esses centros impedem a evaporação natural da água usada no resfriamento, tornando inviável sua reutilização e gerando um desperdício significativo.
A descoberta teve um impacto profundo na vida dos estudantes do CEMEIT. Até mesmo a questão de usar menos recursos tecnológicas foi levantada durante os debates.
O professor de Geografia e orientador da iniciativa, Rafael Pereira, destacou o envolvimento dos estudantes, descrevendo a jornada proposta pelo circuito como desafiadora. “Muitos acreditavam que o download de uma simples foto no WhatsApp ou na internet não prejudicava nosso planeta em nada”, afirmou. A revelação de que existe um local físico que armazena essas informações gerou um choque de realidade”, relatou.
“Os artigos, propagandas e podcasts que incentivei eles a lerem e ouvirem trouxeram um universo de novidades, deixando-os bem assustados”. Para o professor, o mais importante é que esse trabalho “gerou um debate”. “São fundamentais ações de educação que conectem os alunos com os desafios do mundo real, incentivando a reflexão crítica sobre o impacto das tecnologias em nosso planeta”, concluiu o educador.

Outro projeto em destaque na etapa de Taguatinga foi resultado do empenho e da dedicação de estudantes do Centro Educacional 04 de Taguatinga (CED 04). Elas apresentaram uma abordagem inovadora para o problema do descarte inadequado de resíduos. O projeto integra moda sustentável e empreendedorismo, convertendo banners descartados em produtos úteis e economicamente viáveis. A iniciativa vai além da geração de benefícios sociais e ambientais, buscando um impacto direto na questão hídrica e no desenvolvimento sustentável.
A estudante Kauany Barbosa, do 2º ano do Ensino Médio e integrante da equipe, explicou que a ideia nasceu de uma conversa com o diretor da escola, que revelou a existência de uma sala repleta de banners antigos. “Encontramos banners de outras edições do Circuito de Ciências, achamos também banners de outros eventos e começamos a pensar em uma destinação para aquele lixo”, relatou Kauany.
Inicialmente, a proposta era confeccionar ecobags para o mercado. A popularidade dessas sacolas em corridas de rua em Brasília inspirou a equipe a customizar os produtos com pinturas e enfeites, visando atrair o público adolescente. A pesquisa revelou um dado crucial: ecobags feitas de materiais convencionais podem levar cerca de 400 anos para se decompor. Essa descoberta reforçou a proposta de reutilizar os banners, desviando-os do descarte.

As ecobags são pintadas e customizadas manualmente pelas estudantes. Atualmente, a equipe almeja comercializar as peças, o que colocará em prática habilidades empreendedoras.
A professora Vanessa Neves, orientadora do projeto, destacou o engajamento das estudantes. “Esse projeto vem sendo desenvolvido desde o início de 2024, e a proposta surgiu a partir desse acúmulo de material que, como todos sabem, é difícil de degradar. As estudantes acolheram a ideia com entusiasmo, resultando na criação de diversos acessórios que estão fazendo sucesso em nossa escola”, pontuou Vanessa.
A professora também ressaltou, ainda, que as estudantes sempre aparecem com novas ideias, almejando a implantação de uma oficina na escola para integrar pais e a comunidade, além da possibilidade de comercializar os produtos em mercados locais. O próximo passo ambicioso é expandir a produção das ecobags para mochilas que podem comportar acessórios de corrida de rua. A perspectiva, segundo ela, é de amadurecer ainda mais a ideia até que elas concluam o 3º ano.
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