Aos 73 anos, a guia turística Ana Lorenza Lopes de Gomes planeja o retorno ao empreendedorismo feminino com o apoio da tecnologia para alavancar seus negócios. Formalizada como Microempreendedora Individual (MEI) há 17 anos, ela possui trajetória na condução de turistas nacionais e estrangeiros em roteiros personalizados. Após um afastamento de dois anos para tratar da saúde, ela agora busca retomar as atividades com foco em inovação, adaptando sua atuação às novas condições de locomoção.
Em busca de suporte para essa transição, a pequena empreendedora resolveu participar do painel “Liderança Feminina e o Futuro da Inovação Tecnológica”. O debate ocorreu dentro da programação do Movimente 2026, na última quarta-feira, 4 de março, e reuniu lideranças do setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), telecomunicações, games, além de representantes de negócios de impacto social e startups para discutir desigualdades estruturais e trajetórias de sucesso no ecossistema local.
“Eu quero fazer uma reciclagem do meu trabalho, por isso procurei o Sebrae. Quero trabalhar melhor com a internet. Vim para uma retomada das minhas atividades, mas com algo novo. O nome ‘Movimente’ me atraiu; quis vir também para ter contato com outras pessoas”, afirmou a guia.
A programação foi dividida entre uma mesa de debates e uma palestra motivacional. O diálogo inicial contou com a participação de Thais Rodrigues, representante da Associação dos Desenvolvedores de Jogos do DF (Abring); Bia Portela, CEO da BP Marketing e BP Hub; e Carol Steinkopft, fundadora do Instituto Autismos. As convidadas compartilharam trajetórias de sucesso em setores majoritariamente masculinos e discutiram estratégias para ampliar a presença feminina no ecossistema de inovação.
Durante o debate, a gestora jurídica da Explorement, Greyciele Reginaldo, abordou o desafio de estabelecer autoridade em cargos de liderança, especialmente em segmentos técnicos como o de tecnologia. “Para conseguir a autoridade necessária para mudar resultados, precisei entender o funcionamento da empresa além da legislação. Tive que demonstrar conhecimento sobre como o sinal de internet chega ao cliente, como funciona um provedor e o trabalho do técnico de campo. É preciso se posicionar para que vejam a nossa capacidade”, afirmou.
Bia Portela reforçou a perspectiva de Greyciele ao relatar sua experiência na indústria de games. “Enfrentei os desafios de ser uma mulher na liderança de jogos precisando me posicionar constantemente. Demonstro que domino o setor pelo conhecimento técnico que adquiri, reafirmando minha autoridade no comando dos negócios”, pontuou.
No campo do impacto social, Carol Steinkopft detalhou a criação de um programa de musicoterapia para pessoas autistas. A empreendedora relatou que a descrença externa foi um obstáculo frequente no desenvolvimento de uma solução inovadora para um tema complexo. “Ainda ouço diariamente que meus projetos não darão certo, mas acredito no nosso potencial. Nós, mulheres, somos seres extremamente criativos”, defendeu Carol.
Encerrando a atividade durante o Movimente 2026, o público pôde conferir uma apresentação feita pela especialista em comunicação de alto impacto e performance sob pressão, Tiane Amaral. Ela atua como palestrante, mentora e treinadora para líderes e empresas e levou ao evento um relato de superação sobre as barreiras de gênero e raça no mercado de alta performance. “Como uma mulher preta, do interior da Bahia e homossexual, ouvi que seria impossível falar de sucesso e inovação. Vejo muitas mulheres frustradas porque, apesar de serem excelentes profissionais, ainda são invisibilizadas”, lamentou Tiane, incentivando a audiência a romper com esses ciclos de apagamento.
O professor de Ciência da Computação e empreendedor de startups, Alex Casanas, que estava na plateia, reafirmou o cenário partilhado pela palestrante. “Pelo que já vi ao longo da minha experiência, de cada 100 mulheres que entram na tecnologia, apenas cinco conseguem seguir nessa área. E também empreendo em outras áreas e percebo que em todas elas as mulheres têm uma capacidade e sensibilidade que os homens não têm”, observou.

