Há pouco mais de três décadas, quando Giovana Navarro e Aurelino de Almeida decidiram trocar a rotina do serviço público pela vida no campo, ainda não se falava em ESG, economia circular ou turismo de experiência. O casal também não imaginava que, anos mais tarde, uma pequena propriedade rural de pouco mais de cinco hectares, no Lago Oeste, receberia visitantes de diferentes regiões do país, acumularia premiações internacionais e se tornaria uma referência na produção artesanal de queijos de leite de cabra no Distrito Federal.
A Cabríssima nasceu oficialmente há 33 anos, mas, segundo Giovana, o projeto começou muito antes de ganhar nome. “Estou casada há 49 anos e, desde que conheci meu marido, compartilhávamos o mesmo sonho: morar em uma propriedade rural e produzir um alimento de alta qualidade. Era um projeto de vida nosso”, lembra.
Até chegar ao endereço atual, o casal passou por diferentes propriedades, conciliando durante nove anos a produção rural com os cargos públicos que ambos ocupavam. Criaram porcos, coelhos e galinhas ornamentais, até descobrirem nas cabras uma afinidade que definiria o futuro da família.

“A cabra é um animal dócil, curioso e extremamente inteligente. Produz um alimento extraordinário, mas que ainda enfrenta muito preconceito porque muitas pessoas conheceram produtos elaborados sem os cuidados necessários. Aqui sempre buscamos mostrar outra realidade”, pondera a empresária.
Foi dessa convivência que surgiu a Cabríssima, hoje especializada na produção de leite, queijos frescos, maturados, doces e outros derivados elaborados exclusivamente com leite de cabra. O trabalho desenvolvido na propriedade ganhou projeção internacional. Somente na ExpoQueijo Brasil 2026 – Araxá International Cheese Awards, considerada a maior competição de queijos artesanais das Américas, a queijaria conquistou uma medalha de ouro, duas de prata e uma de bronze, ampliando uma coleção que já reúne dezenas de premiações nacionais e internacionais.
“O reconhecimento aumenta nossa responsabilidade, mas também demonstra que um pequeno produtor artesanal do Distrito Federal pode competir entre os melhores do mundo”, afirma.
Apesar das premiações, Giovana prefere definir a Cabríssima por outro aspecto. “A sustentabilidade sempre fez parte da nossa história. Há quase cinquenta anos ninguém falava em ESG, mas nós já acreditávamos que era preciso produzir em harmonia com a natureza”, acrescenta Giovana.

Essa filosofia orienta praticamente todas as decisões da propriedade. Apenas cerca de um terço da área é utilizado para produção. O restante permanece preservado ou passou por processos de reflorestamento conduzidos pelo casal, incluindo dois bosques formados por espécies nativas do Cerrado e árvores frutíferas.
Na queijaria, um sistema fechado de tubulações em aço inox reduz significativamente o consumo de água durante a higienização dos equipamentos, economizando aproximadamente dois mil litros por dia. Os resíduos recicláveis são separados integralmente e destinados à reciclagem por meio do Programa Eu Reciclo, enquanto o controle de pragas prioriza métodos que reduzem o uso de produtos químicos.
Toda a produção agrícola utiliza irrigação por gotejamento e boa parte da alimentação do rebanho é produzida na própria fazenda, incluindo silagem, feno e capim cultivados no local. “Costumamos brincar que as cabras são as verdadeiras patroas da propriedade. Elas precisam receber a melhor alimentação e os melhores cuidados’”, brinca a empresária.
O bem-estar animal também se tornou parte da experiência oferecida aos visitantes. Há cerca de três anos, a Cabríssima passou a investir no turismo rural como forma de aproximar consumidores da realidade da produção artesanal.
Atualmente, além de conhecer o capril e a queijaria, os visitantes percorrem áreas reflorestadas, aprendem sobre agrofloresta, manejo sustentável, produção de alimentos e bem-estar animal antes de degustarem os produtos fabricados na propriedade. Recentemente, a programação ganhou uma nova atividade: a experiência de yoga com cabrinhas, selecionada para integrar o catálogo internacional Feel Brasil, iniciativa da Embratur, em parceria com o Sebrae, voltada à promoção de experiências turísticas brasileiras no exterior.
“O turismo rural surgiu porque percebemos que viver apenas da venda dos produtos estava ficando cada vez mais difícil para pequenos produtores. Hoje ele complementa nossa renda e, principalmente, aproxima as pessoas daquilo que fazemos”, garante a empresária.
A experiência também possui uma dimensão educativa. Escolas, universidades, estudantes brasileiros e estrangeiros visitam regularmente a propriedade para conhecer aspectos relacionados à produção agropecuária, gastronomia, medicina veterinária e sustentabilidade. Muitas dessas visitas são realizadas gratuitamente.

“Também entendemos sustentabilidade como educação. Quando uma criança conhece de onde vem o alimento e percebe todo o cuidado envolvido nesse processo, ela passa a olhar o campo de outra forma’’, recorda Giovana.
Ao longo dessa trajetória, a Cabríssima participou de consultorias, feiras e ações promovidas pelo Sebrae no Distrito Federal. O empreendimento também integra o catálogo de experiências Made in Quadrado, iniciativa que reúne experiências turísticas com produção associada ao turismo, e participou da consultoria Agente de Mercado, metodologia voltada à inserção de produtos de pequenos produtores em novos mercados.
Segundo a analista da Gerência de Negócios em Rede do Sebrae no Distrito Federal, Laíse Cabral, a queijaria representa um modelo de empreendimento que conecta produção rural, turismo e identidade regional.
“As vivências Cabríssima e Yoga com Cabrinhas integram o catálogo de experiências Made in Quadrado, que reúne iniciativas de produção associada ao turismo comprometidas com a oferta de vivências autênticas, conectadas ao território e à identidade do Distrito Federal. Ao fazer parte desse catálogo, as experiências contribuem para fortalecer um turismo baseado na produção local, na cultura e na valorização das vivências que aproximam visitantes do Cerrado e de seus produtores’’, pondera a analista.
Para os próximos anos, Giovana pretende ampliar a estrutura destinada ao turismo gastronômico, construir uma cozinha preparada para receber chefs convidados e expandir a realização de experiências culinárias na propriedade. Os planos incluem também ampliar a capacidade de atendimento durante a semana, sem abrir mão da escala artesanal que caracteriza a Cabríssima desde sua origem.

“Queremos continuar crescendo, mas sem perder aquilo que nos trouxe até aqui. Nosso objetivo nunca foi produzir em grande escala. Sempre foi produzir com qualidade, preservar a natureza e receber bem quem chega. É isso que faz sentido para nós’’, finaliza a empresária.
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