Cercado por trilhas e uma vegetação diversa, o Sítio Geranium, propriedade localizada no Núcleo Rural Taguatinga e que completou quatro décadas de história no mês de junho, foi o local escolhido pelo Sebrae no Distrito Federal e o Instituto Bancorbrás para receber o quarto e mais recente encontro da Jornada do Pacto pelo Turismo Responsável. A atividade foi realizada na manhã da última terça-feira, 4 de agosto, e apresentou uma programação pensada para aprofundar os debates sobre o turismo de bem-estar como estratégia de diferenciação.
A jornada foi criada com o propósito de fortalecer o desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do turismo no Distrito Federal. Alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a iniciativa consiste na realização de encontros itinerantes que visam qualificar os atores do setor e estimular a criação conjunta de estratégias transformadoras, com foco especial em práticas de responsabilidade socioambiental para o turismo.
Quem abriu a programação do encontro foi a turismóloga Luciane Quadro, que traçou um panorama de como o turismo vem se transformando mundo afora. Segundo ela, o novo luxo já não está mais em bens materiais, mas em tempo, silêncio, natureza, privacidade e autenticidade, elementos cada vez mais escassos e, por isso, mais valorizados pelo turista contemporâneo.

Luciane também apresentou números do turismo de bem-estar no mundo e no Brasil e usou o conceito da prática para aprofundar um raciocínio central de sua fala, o de que o diferencial competitivo de um destino não está na infraestrutura física, mas na riqueza das vivências sensoriais que ele proporciona. Para a turismóloga, o que define a força de um destino é o significado que o visitante atribui a cada momento vivido e, principalmente, o que ele leva na memória.
A especialista ainda falou ao público presente sobre exemplos práticos de como atividades simples podem conectar o turista à identidade local de forma profunda. No entanto, Luciane fez questão de esclarecer um equívoco comum sobre o conceito. Segundo ela, práticas como ioga, massagens e banho de floresta não são, por si só, turismo de bem-estar, mas apenas ferramentas a serviço de uma experiência maior, que deve estar ligada ao significado e à conexão que o visitante estabelece com o destino.
Na avaliação da especialista, quando o visitante participa diretamente da atividade, ele deixa de ser espectador e passa a coprodutor da própria experiência, criando um vínculo afetivo que se torna a ferramenta de marketing mais poderosa ao alcance do empreendedor. “O que levar na memória, além da fotografia, é muito importante. As pessoas esquecem rapidamente de infraestruturas, mas lembram do que sentiram, da interação e do que aprenderam. É essa memória que devemos planejar estrategicamente”, pontuou Luciane.
A turismóloga ainda compartilhou uma experiência pessoal que vivenciou em um templo budista na cidade de Cabreúva, no interior de São Paulo. Lá, Luciane participou de uma trilha cuja proposta era o silêncio absoluto como forma de conexão com a natureza.

Durante o percurso até uma cachoeira, ela e mais algumas pessoas foram desafiadas a aguçar os sentidos, observando a vegetação e as variações do clima, além de escutar os sons de pássaros. A experiência foi marcada pela simplicidade e pelo cuidado, com um momento de partilha à beira de um rio da região, onde as próprias monjas serviram chá e biscoitos, e um almoço no retorno ao templo, quando os participantes puderam, enfim, relatar as sensações e os desafios de manter o silêncio absoluto por tanto tempo.
A experiência foi concluída após a saída do mosteiro, mais precisamente no momento em que a turismóloga recebeu arquivos em foto do grupo acompanhada das reflexões compartilhadas durante toda a ocasião. Segundo Luciane, essa entrega personalizada transforma a vivência em algo tangível e compartilhável, funcionando como um termômetro de satisfação e um poderoso instrumento de marketing que prolonga a memória da experiência e atrai novos clientes.
A programação do encontro seguiu de forma semelhante ao que Luciane contou. Após um brunch com receitas feitas com produtos cultivados no Sítio Geranium, os presentes foram divididos em grupos e participaram de uma caminhada restaurativa. Essa experiência, somada a outros detalhes como o acolhimento e o cuidado com o ambiente, permitiu internalizar os conceitos de turismo de bem-estar de forma muito mais profunda do que se estivessem apenas assistindo a uma palestra.

A gestora dos projetos de Turismo do Sebrae no DF, Nathália Hallack, comemorou a realização do encontro e destacou a escolha do Sítio Geranium para a experiência. “Quando a gente traz a temática do bem-estar, ela ganha um sentido muito maior ao ser trabalhada em um local preparado para acolher as pessoas a partir dessa mesma perspectiva. O cuidado com os pequenos detalhes faz com que as pessoas internalizem muito mais o que estamos propondo do que se estivessem apenas assistindo a uma palestra expositiva. Essa foi a nossa proposta, unir teoria a uma vivência prática”, explicou.

Nathália também falou sobre a concepção da jornada e o marco de quatro encontros já realizados ao longo do ano. “O que temos vivenciado é uma fidelização das pessoas com a prática do turismo responsável, um senso de engajamento e pertencimento, que é o que precisamos para transformar o nosso turismo. As pessoas chegam aqui como público, mas saem como protagonistas dos seus próprios negócios”, acrescentou.
Roberta Abreu, gerente executiva do Instituto Bancorbrás, também comemorou a realização do encontro. Ela trouxe uma reflexão sensível sobre a essência do setor, a capacidade de gerar conexões emocionais, o poder do trabalho coletivo e ressaltou como o ambiente escolhido para o evento, cercado pela natureza e repleto de estímulos sensoriais, materializa a proposta de um turismo voltado para o bem-estar.
Roberta ainda reforçou a importância estratégica das parcerias institucionais, ao pontuar que o sucesso do projeto reside na criação de um ecossistema sólido, em que a colaboração mútua entre os agentes do setor garante o fortalecimento de todos. “É possível a gente colaborar, criar esse ecossistema juntos, se fortalecer. Muitas vezes a gente precisa pegar na mão um do outro para que a gente faça dar certo. Esse é o propósito, principalmente, dessa jornada”, complementou.

Sobre a jornada
O ponto de partida para a realização da jornada ocorreu ainda em dezembro de 2025, com uma oficina para diagnosticar desafios do setor e temas de interesse que dialogavam com o universo do turismo responsável.
Diante desse cenário, o Sebrae no DF e o Instituto Bancorbrás uniram esforços para transformar essa necessidade em uma ação estruturada. Em vez de se limitarem a eventos isolados, as instituições optaram por instituir uma rotina de encontros mensais, com uma dinâmica capaz de permitir o aprofundamento contínuo das pautas e facilitar a internalização efetiva dos princípios de sustentabilidade nos modelos de negócio.
A jornada foi estruturada para ocorrer em oito encontros e abordar temas como diversidade, inclusão e parcerias colaborativas, além de questões práticas, como economia circular, mensuração de indicadores, acesso a fundos de investimento e obtenção de certificações.
O pontapé inicial ocorreu no início de maio, quando o Sebrae no DF recebeu os participantes no Sebraelab, localizado no Parque Tecnológico de Brasília (BioTIC). A atividade resultou em reflexões a partir do tema “Turismo Regenerativo e Experiências com Propósito” e contou com a participação de Jaqueline Gil, ex-diretora de Marketing Internacional, Negócios e Sustentabilidade da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur).
O segundo encontro ocorreu em junho, na sede do Instituto Bancorbrás, com o tema “Marketing de Propósito e Impacto no Turismo” e a presença da jornalista Ana Duék. Já o terceiro encontro, realizado na sede do Sebrae no DF, teve como foco o tema “Turismo Inclusivo Como Estratégia de Negócio”, com a participação da advogada, professora e pesquisadora Marklea Ferst.
O quinto encontro da jornada acontece no dia 1º de setembro, a partir das 9h, no Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (CET/UnB) e apresentará estratégias para ampliar acesso aos mercados.

