Donos de micro e pequenos negócios marcaram presença na noite da última quinta-feira, 26 de fevereiro, em mais uma capacitação promovida no âmbito dos projetos Brasília Conecta TIC e Sebrae Conecta Games. A atividade aconteceu no Sebraelab, no Parque Tecnológico de Brasília (BioTIC) e, desta vez, orientou os participantes acerca da a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), uma das principais diretrizes estabelecidas pelo Ministério do Trabalho no Brasil.
Criada em 1978, a NR-1 estabelece as diretrizes fundamentais para a segurança e saúde no trabalho, funcionando como a base para todas as demais normas regulamentadoras. Em maio de 2026, a norma passará por uma atualização histórica ao incorporar a gestão de riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Tal mudança obriga as empresas a identificar e mitigar fatores como carga excessiva de trabalho, assédio e estresse, alinhando a legislação brasileira às melhores práticas internacionais de combate ao burnout e à ansiedade no ambiente corporativo.
A nova redação da NR-1 vai exigir uma postura mais proativa das organizações, que deverão implementar treinamentos específicos para gestores e criar mecanismos de monitoramento contínuo do bem-estar emocional dos colaboradores. No setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), essa exigência torna-se ainda mais relevante, considerando a alta incidência de fatores como pressão por resultados, jornadas intensas, trabalho remoto e sobrecarga cognitiva.
Nesse contexto, as empresas precisarão incorporar a gestão dos riscos psicossociais em seus programas de gerenciamento de riscos, promovendo ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis. O objetivo central é transformar a cultura organizacional, garantindo que a saúde mental deixe de ser um tema periférico para se tornar um pilar estratégico da produtividade, da inovação e da segurança do trabalho.

A gestora dos projetos do Sebrae no DF, Cláudia Bonifácio, destacou que a capacitação buscou reposicionar a NR-1 como um instrumento estratégico de gestão, indo muito além do mero cumprimento de exigências legais. Segundo ela, a norma deve ser compreendida como uma ferramenta de clareza organizacional, capaz de organizar responsabilidades e o cuidado real com o capital humano que sustenta as empresas. “Muitas empresas ainda enxergam as normas apenas como um checklist de conformidade, mas a NR-1 é, na verdade, um recurso para fortalecer o vínculo entre a empresa e quem a constrói. Nosso objetivo é mostrar como essa norma pode aprimorar a liderança e a percepção dos colaboradores, criando ambientes mais saudáveis, engajados e sustentáveis”, pontuou.
A capacitação foi conduzida pela advogada e consultora Denise Freitas, especialista em compliance empresarial com mais de 20 anos de experiência jurídica e membro da Comissão de Startups da Ordem dos Advogados do Distrito Federal (OAB/DF), e a psicanalista e comunicóloga Aline Albernaz, psicanalista e comunicóloga Aline Albernaz e pesquisadora em saúde mental no trabalho.
Juntas, as especialistas estruturaram o Eixo da Clareza, um projeto que tem como premissa integrar saúde mental e conformidade jurídica a partir da premissa de que todo CNPJ é sustentado por um CPF. A metodologia usada pela dupla orienta a tomada de decisão empresarial ao alinhar a gestão de desempenho organizacional com o gerenciamento de riscos psicossociais exigidos pela NR-1.
A apresentação da dupla foi estruturada em blocos e revelou um retrato do cenário corporativo brasileiro, revelando um recorde de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025 — um aumento de 15% que custa R$ 77 bilhões anuais à economia. No campo jurídico, o cenário é igualmente crítico, com mais de 458 mil ações por assédio moral nos últimos cinco anos e condenações que podem chegar a R$ 181 mil por colaborador.
Para além da obrigação legal, Denise e Aline pontuaram as principais mudanças e exploraram que a conformidade com a nova redação da norma impacta diretamente o valuation e a lucratividade das empresas. Segundo elas, ao estruturar adequadamente os riscos psicossociais, as empresas não apenas protegem sua margem de lucro e acessam linhas de crédito favorecidas, mas transformam a segurança psicológica em uma vantagem competitiva de alta performance e longevidade.

“Existe uma visão estratégica por trás da norma. o empresário não deve apenas se adequar por obrigação, mas entender que um ambiente onde o funcionário se sente bem e parte do processo é o caminho mais direto para reduzir perdas e catapultar a lucratividade”, observou Denise.
Aline reforçou que a atualização da NR-1 não deve ser encarada pelo empresariado como um fardo regulatório, mas como um pilar indispensável para a longevidade dos negócios e lembrou que em um mundo onde as pessoas passam a maior parte de suas vidas no ambiente de trabalho, a saúde mental tornou-se o divisor de águas entre empresas efêmeras e organizações sustentáveis e rentáveis a longo prazo. “Se não falarmos de saúde mental dentro do ambiente corporativo, não conseguimos mais pensar em negócios longevos; os donos de empresas devem abraçar este tema como uma grande possibilidade estratégica de tornar seus negócios não apenas mais interessantes para quem neles trabalha, mas também mais rentáveis e duráveis”, complementou a psicanalista.

Entre os presentes ao Sebraelab estava a empreendedora Janete Cardoso, fundadora do Instituto Kaplun — organização que promove o desenvolvimento humano e corporativo ao integrar comunicação, educação e tecnologia. Ela avaliou de forma positiva a capacitação ofertada pelo Sebrae, destacando, especialmente, a estruturação do conteúdo. “Precisamos entender que, se o corpo e a mente não estiverem saudáveis, não há criatividade, não há produção e não há como prosperar. A questão legal apenas regulamenta, mas como foi abordado na apresentação, é na dimensão humana e nas vivências práticas que conseguimos avançar resolver problemas reais”, analisou a empreendedora.

