Três trajetórias construídas a partir do trabalho manual, da pesquisa e da transformação do artesanato em atividade econômica estão entre as 100 selecionadas pela 6ª Edição do Prêmio Sebrae Top 100 de Artesanato. Cleziania Ribeiro, Marcela Souza e Tiemi Okata representam o Distrito Federal na premiação nacional, que reconhece unidades de produção artesanal com destaque pela qualidade dos produtos, pela capacidade de gestão e pela diferenciação de suas criações.
O resultado foi divulgado no início de setembro, após um processo que avaliou produtos e práticas de gestão. A cerimônia de premiação está marcada para 11 de novembro, no Rio de Janeiro, onde também será realizado o Encontro de Negócios, nos dias 12 e 13. As três artesãs terão os trabalhos incluídos no catálogo da edição e poderão utilizar o selo do Top 100 durante três anos, a partir da entrega do certificado.
O Prêmio Sebrae Top 100 é voltado a unidades de produção artesanal formalizadas, com CNPJ ativo. Cada participante precisou inscrever três produtos, que foram analisados segundo critérios como qualidade de inovação, estética, técnica, simbólica e funcional. As unidades classificadas avançaram para uma segunda etapa, dedicada à avaliação da gestão, que considerou aspectos como condições de trabalho, compromisso socioambiental, experiência comercial e estratégias de diferenciação.
A seleção nacional também representa uma etapa na consolidação de negócios que, em muitos casos, nasceram de habilidades aprendidas no ambiente familiar ou desenvolvidas de maneira intuitiva. Para as artesãs do Distrito Federal, o reconhecimento está relacionado tanto à qualidade das peças quanto ao processo de compreender o fazer manual como uma atividade que exige planejamento, organização, posicionamento e estratégia comercial.
“O Top 100 reconhece a qualidade dos produtos, mas também a trajetória de organização e amadurecimento dos empreendimentos. As artesãs precisaram apresentar não apenas peças diferenciadas, mas também demonstrar como estruturam a produção, cuidam da gestão, comercializam e desenvolvem seus negócios. Elas têm histórias muito próprias, mas compartilham esse processo de transformar o saber manual em uma atividade profissional”, avalia Felipe Fernandes, gestor do projeto de artesanato no Sebrae no DF e analista da Gerência de Negócios em Rede.
Segundo o gestor, a participação no prêmio amplia a visibilidade das artesãs e cria novas possibilidades de conexão com compradores, lojistas, galerias, instituições culturais e outros mercados. “O reconhecimento nacional ajuda a mostrar que o artesanato é uma atividade econômica que envolve conhecimento técnico, identidade, inovação e gestão. O papel do Sebrae é acompanhar esse desenvolvimento, oferecendo capacitações, consultorias, conexões e orientação para que cada artesã possa avançar sem perder a essência do próprio trabalho”, acrescenta.
Cleziania Ribeiro: 35 anos entre arte e gestão
A relação de Cleziania Ribeiro com o artesanato começou ainda na infância. Aos 12 anos, ela passou a observar a mãe produzir peças utilitárias e encontrou na escultura uma forma de expressão que acompanharia diferentes fases de sua vida. Aos 23 anos, mudou-se para o Distrito Federal, onde começou a participar de exposições e a conquistar reconhecimento pelo trabalho.
“Éramos de uma família muito simples. Mas foi quando me mudei para o DF que as portas do artesanato se abriram para mim. Comecei a ser reconhecida, a mostrar meu trabalho e a participar de exposições”, relembra.
Ao longo de 35 anos de trajetória, Cleziania participou de 15 edições do Salão do Artesanato e foi premiada quatro vezes no Prêmio Brasília de Artesanato. A artesã também encontrou no Sebrae um apoio para aperfeiçoar o acabamento das peças e ampliar a compreensão sobre a atividade empresarial.
A aproximação com a instituição ocorreu por meio de cursos, consultorias e orientações voltadas à melhoria dos produtos e à organização do negócio. Para Cleziania, esse acompanhamento foi importante porque a ajudou a perceber que o trabalho realizado manualmente também precisava ser administrado como uma empresa. “Um dos meus maiores desafios foi aprender a organizar o meu trabalho como uma empresa. Eu sempre fui muito artesã, muito focada em criar e produzir, mas não tinha essa visão de gestão, de negócio e de empresa”, explica.
Para Cleziania, a seleção entre as 100 unidades reconhecidas representa a continuidade de uma trajetória construída com dedicação ao artesanato e também uma oportunidade de apresentar seu trabalho a novos públicos.
“Para mim, estar entre as selecionadas do Top 100 representa uma conquista muito grande, além de uma alegria e uma felicidade que ainda nem consigo dimensionar. Acho que, até agora, não estou acreditando. É um sonho estar entre as 100 selecionadas e um reconhecimento de muitos anos de trabalho, dedicação e amor pelo artesanato”, destacou.
Tiemi Okata: origami com referências de Brasília
Artesã de Santa Maria, Tiemi Okata desenvolveu uma linguagem própria a partir do origami e de elementos associados à paisagem e à arquitetura de Brasília. O trabalho começou com a série Athos em Origami e, ao longo das participações na CASACOR, passou a incorporar representações de árvores encontradas no Distrito Federal.
A trajetória de Tiemi também é marcada pela transformação de uma técnica delicada, inicialmente associada a peças de baixo valor, em uma produção autoral com maior reconhecimento e inserção no mercado.
“Foi desafiador agregar valor a um papel dobrado. Comecei vendendo origamis por centavos, a partir de R$ 0,20. Hoje, sou autora de uma obra protocolar. Foram anos de dedicação e estudo, de erros e acertos”, recorda.
A artesã atribui parte desse processo às oportunidades de exposição e conexão oferecidas pelo Sebrae. Segundo ela, a participação em eventos e rodadas de negócios ampliou sua visão sobre os caminhos possíveis para o negócio. “O Sebrae contribuiu para o meu crescimento. No início, ao me incluir em eventos e rodadas de negócios, plantou uma semente no coração de uma artesã. Isso me fez querer crescer e abriu novos horizontes”, reflete.
Atualmente, Tiemi também participa de cursos e consultorias voltados à organização e ao direcionamento do empreendimento e acredita que a seleção para o Top 100 representa o reconhecimento de um trabalho desenvolvido de maneira gradual, com aperfeiçoamento contínuo da técnica e construção de uma identidade própria. “Para mim, essa seleção representa orgulho. Estou sendo reconhecida pelo trabalho que construí tijolo por tijolo, com as minhas próprias mãos. Espero novos desafios para “origamar” e novos mercados para atender. Acima de tudo, desejo que o selo Top 100 agregue ainda mais valor ao trabalho autoral e feito à mão”, completa.
Marcela Souza: memória, identidade e fé popular
Já Marcela Souza trabalha com esculturas autorais inspiradas em saberes tradicionais brasileiros e manifestações da fé popular. Suas peças representam figuras como benzedeiras, raizeiras, pretos e pretas-velhas e vaqueiros, sem se restringirem a uma religião específica.
A relação com o fazer manual também começou na infância. Ela vem de uma família formada por mulheres artesãs, de quem aprendeu técnicas como pintura, costura, bordado e crochê. Ao longo da trajetória, reuniu esses conhecimentos em uma produção própria, que hoje se concentra na escultura.
“Comecei a fazer artesanato na infância. Minha família é formada por mulheres artesãs, tanto do lado do meu pai quanto do lado da minha mãe. Aprendi a pintar, costurar, bordar, fazer crochê e desenvolver todo esse conjunto de trabalhos manuais”, conta.
As esculturas são produzidas com massas moldáveis e recebem elementos construídos manualmente, como roupas, cabelos, acessórios e objetos em miniatura. Marcela também utiliza sementes, galhos, fibras e tecidos descartados pela indústria têxtil. “Tudo é feito à mão e sem molde. Essa combinação de várias técnicas que aprendi ao longo da vida é um diferencial do meu trabalho. Reúno nas peças todo o aprendizado que recebi das minhas tias, da minha mãe e das minhas avós”, descreve.
A seleção para o Top 100 representa, para Marcela, o reconhecimento de uma produção que mantém relação com a própria origem e com as referências culturais que orientam seu trabalho.
“Para mim, o Top 100 representa um reconhecimento muito importante, tanto da minha trajetória como artesã quanto da identidade do trabalho que venho construindo. Eu vim do sertão baiano, e as memórias da minha família, da minha infância e da minha juventude, relacionadas à cultura e à fé popular, estão recebendo reconhecimento por meio das peças que produzo. Isso é muito grandioso para mim”, afirma.
De acordo com Marcela, o Sebrae contribuiu para ampliar sua percepção sobre as possibilidades de crescimento e para oferecer ferramentas de gestão e posicionamento. “Acho que, sem o Sebrae, eu ainda estaria fazendo arte como um hobby. Eu via o artesanato como algo de que gostava, que me dava muito prazer e algum dinheiro, mas não tinha um planejamento como empreendimento. Eu não empreendia de verdade. Com o Sebrae, muitas portas se abriram. Mas, antes de abrir portas para fora, o Sebrae ampliou a minha visão interna sobre as possibilidades e os lugares a que eu poderia chegar”, ressalta.
Reconhecimento e próximos passos
A seleção das três artesãs do Distrito Federal ocorre em um momento de consolidação de seus trabalhos como negócios. Cada uma delas atua com técnicas, materiais e referências diferentes, mas as trajetórias convergem na necessidade de transformar conhecimento, criatividade e produção manual em empreendimentos organizados e capazes de alcançar novos públicos.
O regulamento do Top 100 prevê que as 100 unidades selecionadas recebam certificado, participação na solenidade de premiação, divulgação de até três produtos no catálogo da edição e autorização para utilizar o selo da premiação pelo período de três anos. Também estão previstas ações de promoção comercial e oportunidades de participação em eventos de abrangência nacional.
A cerimônia será realizada em 11 de novembro, no Rio de Janeiro. Na sequência, nos dias 12 e 13, as artesãs participarão do Encontro de Negócios, iniciativa voltada à aproximação entre unidades produtivas e potenciais compradores e parceiro
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